Nascido em Moçambique, em Lourenço Marques, casado, com dois filhos e três netos (uma rapariga e dois rapazes) e uma longa e dedicada ligação ao BADMINTON
José da Silva Bento
Meritorious Service Award da IBF (Federação Internacional de Badminton) - Sócio de Mérito com Distinção da FPB (Federação Portuguesa de Badminton)
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Entrevista com o Prof. Nuno Santos
Prof. Nuno Santos
9/3/2010
Curioso o artigo de opinião do Prof. Nuno Santos, de ontem, no blog do Prof. Fernando Gouveia.
E curioso por vários aspectos:
Primeiro porque o Prof. Fernando Gouveia não costuma publicar comentários relacionados com a modalidade em geral.
Segundo porque nesse artigo se destacam algumas observações que refletem críticas à forma como o Badminton tem vindo a ser dirigido, o que contraria as manifestações apresentadas pelo Prof. Gouveia nos últimos tempos onde se destacam diversos elogios a dirigentes federativos e onde critica aqueles que se manifestam de forma contrária àquela que é seguida pela FPB.
Terceiro pela coincidência deste artigo de opinião surgir numa altura em que me referi precisamente à forma como aqueles que mais propostas e ideias têm apresentado à FPB, nomeadamente no último Fórum Nacional realizado pela FPB e que continuam na gaveta, ou melhor na rubrica “Debate” do site da FPB e de onde se destacam precisamente as apresentadas pelo Prof. Nuno Santos, que juntamente comigo, mais trabalhos entregámos para discussão.
No meu artigo de opinião de 26 de Fevereiro, CONSELHO TÉCNICO DA FPB - UM ÓRGÃO BEM IMPORTANTE E NECESSÁRIO !
sobre a reactivação do mesmo e do convite feito merecidamente a diversos elementos de grande capacidade e conhecimentos da modalidade, chamei a atenção para o lamentável não aproveitamento de outros elementos sendo o primeiro deles precisamente um dos mais válidos que considero existir actualmente na modalidade e que é, sem dúvidas, o Prof. Nuno Santos.
Para quem leu o meu citado artigo e agora este do Prof. Nuno Santos pode e deve depreender que afinal ainda existem pessoas interessadas em ajudar o Badminton embora elas continuem a ser ignoradas por quem dirige a modalidade.
Quanto ao Prof. Fernando Gouveia, ao ter publicado este artigo de opinião, deixa-me satisfeito por ver que talvez tenha repensado a sua maneira de estar na modalidade voltando aos velhos tempos em que ns tornamos amigos, o que muito estimo e passou de novo a aceitar as ideias dos denominados “críticos” como válidas, pelo menos como passíveis de discussão salutar e útil para melhorar o nosso Badminton.
Também fico muito agradado pelo facto de passar a aceitar opiniões sobre aspectos globais e que tanto intessessam à modalidade e não só para as que dizem respeito aos não seniores, que embora sejam muito importantes para o futuro, não poderão ofuscar a necessidade de ouvir os restantes que tanta falta fazem a toda uma estrutura que a modalidade precisa para sobreviver e progredir.
Mas os meus maiores agradecimentos vão para o Prof. Nuno Santos que apresenta variadas ideias, para além das observações que considero correctas e perfeitas sobre muitas das situações que se verificam na modalidade e em especial no sistema competitivo existente e que é, também no meu entender, o principal responsável pela situação em que se encontra o Badminton português.
Por isso quero reforçar mais uma vez os parabéns ao Prof. Nuno Santos que ainda manifesta a vontade de querer colaborar com a modalidade e colocar-me ao seu dispor para em conjunto e com a possível colaboração de outros elementos bem válidos e experientes, não esquecendo aqueles que, embora estejam há menos tempo no Badminton, têm ideias claras e também quererão porventura colaborar na criação de um consenso de prioridades e de objectivos para efectuar um trabalho que poderia ser apresentado em alternativa ao que vem a ser efectuado pela FPB.
Do seu artigo de opinião quero salientar e chamar a atenção para três pontos:
“
1- Acesas discussões têm surgido, ultimamente, nos espaços de discussão da Internet da nossa modalidade, em torno do tema Assembleia Geral e dos votos que X e Y têm direito. É salutar que se discutam estes assuntos nem que seja para manter informado o praticante comum, e clarificar as leis pelas quais a sua prática é regulamentada. No entanto, parece-me desajustada a importância que lhe é atribuída, pois qualquer que seja a distribuição ou o número de votos, as pessoas que assumirão o poder serão sensivelmente as mesmas, com ligeiros "retoques" aqui e ali.
2-A modalidade é demasiado pequena e as pessoas disponíveis para desempenharem cargos de responsabilidade são poucas e ainda menos as que estão disponíveis e têm competência para o fazer. Para além disso, a nossa pequenez favorece os interesses instalados, razão pela qual quem tem o poder não abdicará dele.
3-Sempre defendi que o Sistema Competitivo é o principal instrumento à disposição da FPB, que promove a captação de novos praticantes para a modalidade e que dê resposta aos interesses de todos os tipos de atletas, para que a prática da modalidade seja prazerosa e estimulante para todos. Como é óbvio, mantêm-se a jogar, aqueles que retiram prazer dos estímulos que lhes são dados.
“
Mas é sem dúvida a sua opinião sobre algumas das alterações que sugere para o sistema competitivo nacional, que eu igualmente defendo, que merece ser referida, bem estudada e felicitada.
Dado o interesse dos seus depoimentos transcrevo o brilhante conteúdo do seu artigo de opinião.
TEXTO COMPLETO DO ARTIGO DE OPINIÃO DO PROF. NUNO SANTOS COLOCADO NO BLOG “O BADMINTONISTA” de 8/3/2010:
“
Acesas discussões têm surgido, ultimamente, nos espaços de discussão da Internet da nossa modalidade, em torno do tema Assembleia Geral e dos votos que X e Y têm direito. É salutar que se discutam estes assuntos nem que seja para manter informado o praticante comum, e clarificar as leis pelas quais a sua prática é regulamentada. No entanto, parece-me desajustada a importância que lhe é atribuída, pois qualquer que seja a distribuição ou o número de votos, as pessoas que assumirão o poder serão sensivelmente as mesmas, com ligeiros "retoques" aqui e ali. A modalidade é demasiado pequena e as pessoas disponíveis para desempenharem cargos de responsabilidade são poucas e ainda menos as que estão disponíveis e têm competência para o fazer. Para além disso, a nossa pequenez favorece os interesses instalados, razão pela qual quem tem o poder não abdicará dele. Desta forma, parece-me que, passada mais uma Assembleia Geral, mudarão algumas caras mas permanecerá tudo na mesma. Não vale a pena “chover no molhado”.
Queria desviar a discussão para um assunto que me inquieta e parece bem mais importante, relacionado com o desenvolvimento da modalidade, nomeadamente com o reduzido número de atletas, da consequente falta de nível competitivo e fracos resultados internacionais (apenas escamoteados pela obtenção de resultados esporádicos fruto de apostas particulares), principalmente das Selecções Nacionais.
Sempre defendi que o Sistema Competitivo é o principal instrumento à disposição da FPB, que promove a captação de novos praticantes para a modalidade e que dê resposta aos interesses de todos os tipos de atletas, para que a prática da modalidade seja prazerosa e estimulante para todos. Como é óbvio, mantêm-se a jogar, aqueles que retiram prazer dos estímulos que lhes são dados.
Apreciei a decisão da FPB em avançar para a divisão territorial por zonas. Foi um passo decisivo rumo ao desenvolvimento da modalidade. No entanto, a actual implementação do Sistema Competitivo de Não Seniores, cheio de cedências à esquerda e à direita para proteger os interesses de alguns, veio-se a revelar um equívoco.
É facto que com o actual sistema, se evitam os excessos de inscrições nos torneios nacionais, provocando a necessidade de competição em vários pavilhões, mas que mais-valias vai a modalidade retirar deste modelo?
Os atletas menos cotados têm oportunidade de jogar mais vezes? Não! Há mais atletas interessados em jogar Torneios Zonais? Não me parece. Os quadros competitivos foram construídos a pensar nos melhores jogadores. Os outros foram esquecidos.
Um exemplo ilustrativo é os quadros de eliminação à primeira derrota, quando existe um determinado número de inscrições.
Uma criança pode fazer uma viagem de mais de 100km, para actuar em apenas uma partida de singulares (porque, incompreensivelmente, só existem apuramentos em provas de singulares) e passe o resto do dia sem puder jogar. Esta situação de certeza que não é estimulante, e uma criança que passe por ela, apesar de talvez gostar do passeio, nada ganhou com a competição.
Isto leva-me a pensar qual a razão que tornou os Torneios de Divulgação, das acções da FPB com maior sucesso na "divulgação" do Badminton.
As diferenças para os Torneios Zonais são enormes:
- As crianças participam em mais jogos com diferentes adversários (mesmo que às vezes se recorra a pontuações reduzidas, no total, os miúdos jogam mais tempo)
- O ambiente é mais informal (de confraternização e fair-play) e sem obsessão pela vitória, que proporciona maior diversão aos atletas
- Para além disto, estes torneios possibilitaram a aproximação necessária ao Desporto Escolar
Se temos esta receita de sucesso, porque não realizar os Torneios Zonais nos mesmos moldes dos Torneios de Divulgação?
Se analisarmos bem, os Torneios de Divulgação são competições zonais de um dia, sem 2 ou 3 atletas federados por escalão em cada zona (os atletas que têm o asterisco devido à sua classificação no ranking nacional), mas com a participação de um grande número de atletas dos Núcleos de Badminton Escolar. Porque não regulamentar um pouco melhor os Torneios de Divulgação e aproveitá-los para fazer a fase de apuramento zonal (seriam fins de semana poupados em tempo e dinheiro).
Se as inscrições se tornarem demasiadas, porque não criar um sistema de cotas por clube (como já fazem em algumas zonas), de acordo com o número de atletas federados (ou outro critério estipulado), estimulando a competição interna dos clubes? Se as partidas são muitas, porque não adaptar e fazer jogos de pontuações reduzidas? E não estarão as exigências da competição desajustadas às necessidades dos atletas nos diferentes escalões? Porque não reduzir o tamanho do campo nos miúdos sub - 11?
Terão eles as mesmas capacidades (físicas e cognitivas) para jogar um jogo formal como um sénior? Faz igualmente sentido haver competição nacional formal até sub - 13? Estarão estas crianças suficientemente preparadas e maduras para lidar com ansiedades e pressões inerentes a um sistema que exige o resultado?
E qual a vantagem da selecção Nacional sub - 13, senão única e exclusivamente alimentar o ego dos treinadores e clubes? Só exige das crianças um compromisso ao treino enorme e exclusivo numa idade em que elas deviam era experimentar ao máximo outras actividades de forma a melhorar a sua literacia motora.
Também nos seniores surgem muitas questões relativamente ao sistema competitivo. Não fará mais sentido inverter os quadros competitivos, proporcionando competição em poule para as categorias de recreação (C e D's) e competição a eliminar nas categorias mais viradas para a competição (Elites e B's)?
Não serviria de estímulo ao treino (principalmente dos pares) a implementação de uma liga de clubes? Não estará o actual sistema pensado em demasia para os atletas em competição internacional (com poucos torneios nacionais para não colidirem com os torneios internacionais)? E o número de competições ao longo do ano é adequado às necessidades dos atletas seniores (o número de torneios é igual ao de um atleta não sénior)? O jogador português terá o ritmo competitivo adequado, quando decide aventurar-se no circuito internacional?
A realidade tem as respostas para todas estas questões. Basta saber observá-la e retirar dela as soluções. Seremos nós assim tão diferentes dos outros países? Porque será que uns conseguem e outros não? Seremos nós que temos azar?
Os países mais desenvolvidos são exemplos que devem ser seguidos (se o objectivo for evoluir). Dinamarca, Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, diferenciam-se dos restantes pela sua Organização. Basta dar uma olhadela para ver o que se passa por lá.
Muitos partilham opiniões semelhantes às minhas. Alguns até sentirão a mesma inquietação que eu. Mas na minha opinião, poucos desejam realmente o desenvolvimento da modalidade, pois a maioria de nós somos adversos a alterações da nossa normalidade. O CAR não vai resolver estes problemas. E a criação e o desenvolvimento de um projecto a médio / longo prazo provocaria muitas alterações nos hábitos e rotinas de todos nós, coisa para a qual não sei se estamos preparados… Pois é, não há únicos culpados!
PS. Só uma palavra para o novo CAR. Óptimo pavilhão, com excelentes condições para a prática de Badminton e outras modalidades. Só espero que seja utilizado regularmente e que as suas despesas correntes não hipotequem a evolução de mais uma geração de jogadores, tal como o fez a construção da sede da FPB.
A modalidade pode não sobreviver.
Prof. Nuno Santos
“
José Bento
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